Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Coerências

João Moreira Pinto, no 31 da Armada:

 

Das cenas mais enternecedoras da época natalícia é ver ateus militantes a desembrulhar presentes, escandalizados que estão com o materialismo da época. Gozam o subsídio de Natal, aproveitam a tolerância de ponto, ouvem as palavras do amado líder, enquanto lhe pedem um Estado laico. Querem as escolas sem cruzes, uma sociedade livre dos estigmas judaico-cristãos e sonham uma sociedade iluminista, racional e cientificamente perfeita. Sonham de olhares fixos no céu e brilhantes, reflexos das decorações de Natal. 

 

Ateus militantes e teístas militantes, apesar de não admitirem, têm muito em comum.

Ambos são crentes, de tal forma, na sua verdade dogmática, que em ambos os casos podemos falar de uma fé.

O ateísmo militante e repugnante que, imbecilmente, postula que os teístas são carneiros ignorantes e fracos encontra-se, surpreendentemente, bastante próximo do teísmo jactante que pinta os não crentes como infelizes e menos iluminados na Verdade.

 

Se, para um ateu, não existe por princípio qualquer problema no facto de uma sociedade estar assente em valores de génese teológica (todas estão) que maturaram e deram origem aos pilares identitários dos Estados actuais, para um crente não deveria haver qualquer problema por haver ateus que, identificando-se com pressupostos da filosofia cristã e compreendendo o valor da tradição religiosa na sociedade, adiram aos ritos não por fé, mas por tradição.


 

O problema das militâncias é, portanto, uma questão de generalização e incompreensão de parte a parte.


 

Que fé maturada terá uma criança no seu baptizado ou na sua primeira comunhão? Não estará ela, antes do mais, a cumprir uma tradição, ao invés de estar a tomar parte, conscientemente, num acto religioso e de vinculação a Deus?

Da mesma forma, que ateísmo convicto e anti-religioso (porque é disso que se trata) terá alguém que, depois de durante um ano inteiro ter cavalgado a sua cruzada anti-religiosa pessoal, tome parte no ritual bi-milenar que dá graças à vinda do Filho do Senhor?

 

Se virmos bem, a questão ateística é quase política, de pura inspiração ideológica: conservadorismo versus progressismo.

Há muito mais proximidade entre ateus conservadores e teístas moderados do que entre estes e ateus progressistas militantes ou teístas ultra-conservadores igualmente militantes.

 

A importância do pensamento conservador está precisamente na ênfase que se dá à compreensão do passado, da história, dos costumes e, acima de tudo, dos valores.

 

As questões de fé são facilmente ultrapassadas pelo entendimento intelectualmente honesto entre Homens de Bem, independentemente de quem é o Verbo para cada um deles.

 

Se para uns haverá um mundo e uma vida depois da morte e para outros não, isso não invalida que estejam todos condenados a entenderem-se neste.

publicado por Luís Pedro Mateus às 15:48
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Sábado, 26 de Dezembro de 2009

A Crise do Ocidente (2)

A propósito do último post da Maria, recomedo um excelente artigo do Henrique Raposo, no Expresso, onde, entre outras coisas, se pode ler o seguinte:

 

«A neutralidade do estado não deve invalidar a presença da religião na sociedade. 'Estado' e 'sociedade' são duas realidades distintas. O estado deve ser secular, mas a sociedade não deve ser secularizada à força.»

publicado por Tiago Loureiro às 16:59
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A Crise do Ocidente

Outrora tivemos um mundo dividido por um muro ideológico que servia como garante das identidades e dos valores defendidos por cada lado da cortina de ferro. O Muro de Berlim caiu e com ele, faliu o modo de vida comunista imposto aos povos do outro lado. Os interesses dos protagonistas eram cobertos pela capa das ideologias e do bem-estar económico-social inerente a cada uma delas e, apesar das ameaças, o Ocidente vivia um sentimento de confiança historicamente incomparável. Durante algum tempo ainda se pensou que o modelo democrático ocidental iria prosperar, servindo de exemplo a uma quantidade de povos que durante longo tempo ansiaram pela liberdade. Contudo, o que se verificou foi que, na Europa, as comunidades religioso-culturais aumentaram e no mundo, outros fenómenos emergiram, motivados por interesses abafados e controlados por uma estabilidade mantida durante quarenta anos. Num mundo mais globalizado e marcado por um vazio geopolítico, foi necessário encontrar outra cobertura para a justificação desses interesses. E essa cobertura foi a religião, com Deus a regressar ao campo de batalha e, assim, o modo de vida ocidental a estar novamente sob premanente ameaça.

 

Facilmente infiltrável por outros modos de vida e culturas, a democracia ocidental foi obrigada a arranjar novos meios para se defender. O espaço de liberdade imperante nos países democraticos passou a ser utilizado por interesses mal intencionados de vingança e de ódio para fomentar o radicalismo e o fundamentalismo, nomeadamente de cariz islâmica, com expressão máxima nos atentados terroristas de 11/9, 11/3 e 7/7. Para se defender, a democracia passou a dar mais importância à segurança, embora no momento a seguir, surgissem críticos e a opinião pública em defesa da liberdade, gerando um dilema de desconfiança por parte dos cidadãos em relação aos poderes públicos que actuam em sua defesa.

 

Por outro lado, a campanha de homogeneização promovida pelos governos europeus, curiosamente, em nome da liberdade não só tem contribuído para exponenciar a crise de valores e de identidade já sentida, mas também para fomentar revoltas por parte das comunidades acolhidas. Parece que professar a religião na Europa se tornou condenável. São abolidos crucifixos em espaços públicos, é proibida a construção de minaretes, são impostas regras ao vestuário. Em nome da igualdade, prejudica-se a liberdade de expressão e a liberdade religiosa. Em nome da igualdade tentam-se apagar as heranças culturais e civilizacionais europeias para não causar insatisfação a outras comunidades que, voluntariamente, escolhem a democracia motivadas pela crença de se poderem expressar livremente.

 

Pretendo com esta reflexão meramente transmitir que, está na altura de repensar toda a campanha de laicidade e de anti-religiosidade promovida na Europa. Sendo o mundo ocidental um conjunto de democracias livres, o dever de qualquer governo neste círculo é o de promover a liberdade religiosa, a tolerância e o diálogo intercultural, sem perder acima de tudo as suas raízes culturais e tradicionalmente judaico-cristãs. Actuar inversamente é minar a democracia e contribuir para o incremento da crise identitária em que o ocidente vive, fomentar a intolerância, impossibilitar o diálogo e convidar a radicalismos. Pois não é por acaso que as comunidades muçulmanas na Europa são mais perigosas e radicais do que as comunidades muçulmanas nos Estados Unidos.

publicado por Maria Dá Mesquita às 16:08
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Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

"Progressismos"

Em sequência do post do Rui Crull Tabosa no 31 da Armada, que subscrevo na totalidade, aproveito para abordar igualmente a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que postula que um crucifixo na sala de aula pode ser “facilmente interpretado pelos estudantes de todas as idades como um símbolo religioso”. Os alunos estariam assim a ser educados num ambiente escolar com “as marcas de uma religião”.

Junto às características religiosas cristãs da bandeira Portuguesa salientadas pelo Rui Crull Tabosa que muito devem impressionar (e insultar?) as outras religiões, de igual modo, para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem analisar, criticar e proibir as bandeiras do Reino Unido, Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Islândia, Grécia, Malta, Suiça e Eslováquia uma vez que todas elas têm uma cruz de Cristo. 

 

Não compreendo, e nem crente sou, que mal faz um crucifixo numa sala de aula. Não estou a ver como este símbolo pode impressionar e incomodar alguém, e outros, como os citados acima, já não.

 

Não compreendo a obcessão em negar as nossas heranças, em negar a base cristã sobre a qual a Europa se fundou com a justificação de que isso pode incomodar as outras religiões. Não compreendo. Sou ateu, e não compreendo. Não me sinto minimamente atingido nas minhas liberdades religiosas por meros símbolos que fazem parte da história de uma determinada sociedade ou cultura. Se emigrasse para um país Árabe, com certeza não me incomodaria com a estrela e o quarto crescente do Islão nas várias bandeiras... 

 

Importar-me-ia mais que alguns desses países, que tantas vezes criticam a "exagerada" audácia democrática europeia, julgassem a minha companheira por ela não usar um véu na cabeça.

 

Tudo isto é bem ilustrativo da "batalha" entre o conservadorismo moderado e o "progressismo" (as aspas são propositadas) desenfreado.

 

Para mim, o conservadorismo moderado apenas postula que, como bem disse Churchill que...

 

"If we open a quarrel between past and present, we shall find that we have lost the future."

 

publicado por Luís Pedro Mateus às 13:55
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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Os minaretes da democracia

O Islão implica muçulmanos, o Islão implica mesquitas, o Islão implica minaretes. São factos que dispensam qualquer esforço mental.

 

A probição da construção de mais minaretes na Suiça é uma questão que, ao que parece, já requer um pequeno esforço de análise.

 

A liberdade religiosa é um imperativo, é um direito humano fundamental. Na Europa onde vivemos, que se rege pelos cânones civilizacionais do ocidente democrático, de matriz judaico-cristã, aprendemos a evoluir e a respeitar a liberdade das pessoas para seguir e praticar a religião à sua escolha.

 

Parece-me a mim, como aqui já o disseram, que esta questão está coberta de ridículo. Não existe uma justificação aceitável para esta proibição e até as instâncias religiosas católicas e protestantes já vieram condenar o resultado do referendo, advogando precisamente,  que a liberdade religiosa é um direito fundamental.

 

Não deixo de ter um espírito crítico quanto às comunidades muçulmanas que vivem em solo europeu. Em França, principalmente, como na Alemanha e Suécia, estas comunidades tornam-se num problema sensível quando, insistentemente, continuam a isolar-se e a desrespeitar leis de direitos humanos (principalmente no que toca o tratamento das mulheres) que colidem com as suas convicções religiosas.

 

Eu não sou politicamente correcto nem tenho complexos anti-"sionistas" (o que quer que isso signifique) que me faça ter uma atitude de desculpabilização em relação aos muitos defeitos do Islão que é, vê-se, facilmente radicalizável. Para mim, a nossa civilização é melhor que a islâmica ou a chinesa no que toca o respeito pelo próximo - é esta a revolução do pensamento cristão - e foi precisamente esta nossa civilização que, apoiada numa matriz judaico-cristã de pensamento moral e ético, foi evoluindo essas bases, tornadas Lei, de modo a um melhor funcionamento da sociedade, de respeito pelo próximo e com uma intrínseca aderência aos valores democráticos. Evolui-se.

 

Somos mais democráticos e mais respeitadores do que os chamados Regimes Islâmicos que ainda não separam a religião do Estado. A nossa superioridade moral (não tanto nas pessoas, mas nos regimes) está patente na forma como os tratamos cá, em solo europeu, nesta nossa civilização que lhes dá os mesmos direitos que qualquer cidadão nascido na europa ou em áfrica, cristão ou muçulmano, ateu ou crente, homem ou mulher. Mas os direitos acarretam, como todos sabemos, deveres. Portanto trata-se de um compromisso que cada cidadão firma com a sociedade onde se está a inserir.

 

Numa altura em que tudo é considerado aceitável, onde as sociedades se moldam consoante as vontades da maioria - é esta a forma democrática - o modelo de Estado democrático enfrenta um grande desafio.

O processo de decisão e de governo democrático nunca se deve fazer anteceder de algo que lhe é anterior e superior: a moral e a ética.
O facto de uma decisão ser democrática não significa, necessariamente, que esta seja aceitável. Se assim fosse, 50,1% de uma população poderia decidir matar os outros 49,9%. Teria sido uma decisão democrática, sem dúvida, mas inaceitável.

O sucesso da democracia depende portanto da consciencialização desta de que existem limites à sua acção.

A suprema herança que o cristianismo deixa à civilização é precisamente a sua ética. A ética cristã que, quer a crentes e ateus, vincula a consciência individual das acções de cada um, é algo que ultrapassou o significado religioso e se tornou intrínseca ao quotidiano da sociedade.
 

 

Se a sociedade não cair em tentações pírricas, anarquismos e anti-clericalismos, ou seja, se compreender que o Estado não re-inventará a ética dos Homens e que esta é superior e anterior ao próprio estado democrático, estará certamente no rumo do progresso sustentável e de evolução cultural.

 

Numa altura em que se debate, por exemplo, a obrigatoriedade da educação sexual nas escolas (nem vou falar dos minaretes), convinha interrogarmo-nos como cidadãos se o ensino da moral e da ética, sem qualquer preconceito ou fanatismo religioso, não seria muito mais importante, vital até, para a melhor formação dos cidadãos.

 

De facto, os minaretes de que precisamos são aqueles em que se faça o chamamento à consciência interior de cada indivíduo em versos de paz e respeito que inspirem o melhor em cada um.

 

publicado por Luís Pedro Mateus às 15:18
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Não havia necessidade

 

A custo, vou tentando perceber a razoabilidade do referendo suíço sobre os minaretes e, mais ainda, o seu resultado. Referendar um pormenor que não passa disso mesmo e, como consequência, proibir a construção de algo que outra função não tem que não seja meramente simbólica, parece brincar com o fogo com uma enorme vontade de se queimar.

 

É que a tolerância religiosa, tida hoje como uma marca civilizacional de elevada importância, não está livre de sofrer nuances na sua aplicação. Se é certo que todas as religiões são dignas de um tratamento baseado na tolerância e abertura por parte de todos, não é verdade que todas as religiões mereçam o mesmo grau de confiança. O islamismo, certamente, merece um olhar atento e desconfiado. Não é à toa que a maior parte das notícias que nos chegam sobre problemas relacionados, directa ou indirectamente, com religião, estejam ligadas ao Islão.

 

Com recurso a um mínimo de bom senso, toda a gente percebe que os minaretes não representam qualquer espécie de ameaça. Proibi-los, mais não faz do que dar motivos para as virgens lá do oriente se sentirem ofendidas a troco de coisa nenhuma – embora já tenha visto algumas ofendidas por menos – e esvaziar um pouco da credibilidade que a postura vigilante em relação ao Islão merece.

publicado por Tiago Loureiro às 03:11
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